Adolescentes grávidas têm até 3,5 mais chances de apresentar um histórico de tentativa de suicídio

gravida-1Estudo conduzido na cidade de Piracicaba (SP) comparou o perfil psicossocial e o comportamento suicida de 110 adolescentes grávidas ao de 110 adolescentes não grávidas (grupo controle) e concluiu que a freqüência de tentativas de suicídio entre as gestantes é duas vezes mais alta do que a média nacional registrada entre meninas estudantes, e foi 3,5 maior que a taxa identificada no outro grupo analisado pelo estudo, de adolescentes não grávidas (20,0% e 6,3%, respectivamente). Além disso, as adolescentes grávidas apresentaram níveis de depressão (26,3%) e ansiedade (43,6%) cerca de duas vezes mais alto do que o grupo controle (13,6% e 28,0%).

“A gravidez na adolescência e o comportamento suicida na adolescência compartilham fatores de risco comuns. Estes incluem: circunstâncias socieconômicas empobrecidas, reprovação escolar, migração, relações familiares tensas, baixo nível de apoio social, falta de lazer, abuso físico ou sexual, exposição à violência e uso abusivo de álcool e outras drogas”, explicam os autores da pesquisa Freitas, da Universidade Metodista de Piracicaba, e Botega, do Departmento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Universidade Estadual de Campinas. A pesquisa foi apresentada durante a sessão de pôsteres do 17º Congresso Europeu de Psiquiatria, em Lisboa (Portugal).

Os resultados ganham ainda mais importância à luz de outros dados apresentados pelo estudo: embora a taxa de fertilidade total no Brasil tenha caído de 3,4 para 2,1 crianças por mulher adulta entre 1980 e 2000, durante este mesmo período, a gravidez na adolescência (15 aos 19 anos), no Estado de São Paulo, praticamente dobrou, passando de 9,5% para 17,7%.

Implicações
Segundo os autores do estudo, isso confirma importantes descobertas já conhecidas sobre as circunstâncias psicossociais adversas da gravidez na adolescência e mostra que essas meninas também têm mais chances de já ter tentado cometer suicídio. “Levando-se em consideração os resultados obtidos, a gravidez assim como a tentativa de suicídio podem ser vistos como uma maneira de induzir uma mudança nas relações interpessoais. O resultado da gravidez, o impacto da criança sobre a vida destas adolescentes e suas circunstâncias ainda precisam ser investigados, com especial atenção à ocorrência de tentativas de suicídio”.

Na opinião dos especialistas, o período pré-natal oferece uma excelente oportunidade para a identificação de casos de tentativas anteriores de suicídio e para se iniciar um programa estratégico de medidas preventivas com o objetivo de enfrentar a questão e promover o acesso aos serviços de saúde mental. Eles citam como motivos para esta estratégia o fato de: a procura por atendimento pré-natal ser, hoje, uma postura amplamente aceita pelas adolescentes; todos os casos de tentativa de suicídio ocorreram antes do início da gestação, e apenas um terço deles recebeu assistência à época; por fim, quem já ter atentou contra a própria vida tem chances maiores de fazê-lo uma segunda vez.

O estudo
O estudo foi conduzido na cidade de Piracicaba (SP) e as participantes foram selecionadas de acordo com as seguintes características: ter idade entre 14 e 18 anos; ser primípara (primeira gravidez); e estar sob atendimento em um programa pré-natal do setor público de saúde.

O grupo controle (para comparação) foi constituído por 110 adolescentes não grávidas de mesma idade e região de moradia daquelas atendendo o programa pré-natal. Sobre a seleção das participantes deste último grupo, o texto explica que, todas as vezes que uma nova adolescente grávida era selecionada para participar do estudo e o endereço de residência era obtido, os pesquisadores procuravam uma outra com características semelhantes, porém sem estar gestante, era procurada numa distância de, aproximadamente, quatro quarteirões.

Associações
De acordo com pôster da pesquisa, a grande maioria das adolescentes de ambos os grupos que relataram uma tentativa anterior de suicídio (29, sendo 22 grávidas) afirmou tê-lo feito apenas uma vez, com exceção de cinco casos, que relataram uma segunda tentativa. Entre as grávidas, 70% das participantes disseram que o episódio ocorreu mais de 12 meses antes do início da gestação, sem nenhuma ocorrência durante esse período.

Os autores do estudo destacaram também a alta incidência, entre as gestantes, de mudança de local de moradia, acompanhada por uma piora significativa no desempenho acadêmico. Ao todo, 104 das 110 participantes haviam se mudado nos últimos três anos (contra 25 no grupo controle), e 79 haviam abandonado a escola – mais do dobro do visto no outro grupo (36).

Os resultados do estudo mostraram, ainda, que os seguintes fatores associavam-se significativamente à gravidez: ter menos de 7 anos de escolaridade; morte de um dos pais durante a infância; uso de álcool/drogas na família; suicídio cometido por um parente; ameaças de abuso físico ou sexual; baixo apoio social; dificuldades psicossociais; uso prévio de maconha; e consumo semanal de álcool nos últimos 12 meses.

*Notícia da Agência Notisa (science journalism – jornalismo científico)

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