Desinformação leva a uso indevido de vitamina C

gripePor trás de toda receita de um remédio caseiro para a gripe, lá está ela, a boa e velha vitamina  C. Na acerola, no limão e na mixirica, nada substitui a receita passada de gerações a gerações, dando conta de que essa vitamina pode ser um grande trunfo na profilaxia e no tratamento da gripe.

A vitamina C foi isolada em 1928, sendo demonstrado o seu potencial para curar o escorbuto, uma doença que os marinheiros europeus tinham quando saíam em longas viagens de navio e ficavam privados da ingestão dos seus alimentos fontes.

Os seres humanos são uma das poucas espécies que não podem produzir a vitamina C e devem receber esse nutriente através dos alimentos. “O principal papel da vitamina C é a síntese do colágeno, uma proteína que une e dá sustentação às células corporais. O quadro clínico da deficiência de vitamina C se manifesta com fadiga, depressão, inflamação das gengivas e dificuldade de cicatrização de feridas”, explica a endocrinologista Ellen Simone Paiva, diretora do Citen, Centro Integrado de Terapia Nutricional.

Atualmente, as manifestações do escorbuto podem ainda ser vistas em pessoas que ingerem muita bebida alcoólica, pois o uso crônico do álcool pode interferir na adequação da ingestão, absorção e disponibilidade da vitamina C no organismo.

Entre as múltiplas funções da vitamina C, talvez, a mais estudada está na sua ação  antioxidante.  Isso significa que ela consegue neutralizar algumas reações químicas potencialmente prejudiciais ao nosso organismo. “Dentre estas, a vitamina C protege o organismo contra a oxidação do colesterol, tornando-o menos deletério à saúde cardiovascular. Este efeito antioxidante também é postulado como potencialmente protetor para certos tipos de câncer e contra o envelhecimento”, diz a médica.

Fama de curar gripe
A origem da fama da vitamina C na prevenção e no tratamento da gripe vem do seu conhecido efeito na produção de anticorpos. Na verdade, ela parece fundamental para a  proteção imunológica, além de participar da produção do interferon, uma substância com ações anti-viral e anti-câncer.

“Apesar da  extensa publicidade promovida pela indústria farmacêutica, sugerindo  que a vitamina C possa  prevenir gripes e resfriados ou aliviar sua virulência, a pesquisa médica não conseguiu dar suporte científico para essa indicação. Nossa afirmação se baseia em extensa pesquisa científica, com estudos bem elaborados que revelam que as pessoas que consomem suplementos de vitamina C, mesmo em grandes doses de até 3g por dia – quando as recomendações de ingestão diária são de até 60mg por dia – não estão mais protegidas do que aquelas que não fazem suplementação. Esses resultados revelam claramente que não há fundamento que justifique indicar vitamina C para prevenir e muito menos tratar gripes e resfriados”, observa Ellen Paiva, que também é médica nutróloga.

A vitamina C é amplamente encontrada, em grande quantidade, nas frutas cítricas e nos vegetais verdes. O estoque corporal médio de vitamina C é em torno de 900mg e, muitas vezes, as pessoas consomem, de maneira abusiva, doses muito maiores do que essas. “A absorção deste nutriente é rápida e eficiente e o organismo se previne das ingestões excessivas e das mega doses aumentando sua excreção urinária. Isso pode causar acidificação urinária excessiva, uma vez que a vitamina C é um ácido, que aumenta a síntese de oxalato e com ele, uma maior produção de pedras no trato urinário”, explica a diretora do Citen.

Proteção no prato
A literatura médica está repleta de citações que atestam o incontestável  benefício antioxidante de uma alimentação rica em frutas e vegetais, com menor incidência de doenças crônicas como diabetes, doenças cardiovasculares e câncer. Esses alimentos exercem tal efeito através de concentrações adequadas de antioxidantes, que atuam em conjunto com outras substâncias também presentes nesses alimentos, garantindo o efeito antioxidante eficaz. A partir dessas evidências, a pesquisa científica passou a avaliar o benefício isolado de tais antioxidantes oferecidos em cápsulas e comprimidos, os suplementos vitamínicos.

Se os 60mg de vitamina C recomendados diariamente podem ser benéficos, que dirá as mega doses de até 1000mg presentes no mercado, pensarão alguns, ou até as 10.000mg ingeridas pelo cientista Linus Pauling, antes de falecer vítima de câncer, uma vez que ele era um fumante inveterado. “Esse era o pensamento dominante, quando foram preconizadas tais doses. Logo, descobrimos que graças à capacidade de auto-proteção do nosso organismo, os rins eliminam a maior parte dessa vitamina em cápsulas, evitando catástrofes maiores. Hoje, já sabemos que 100g de maçã com casca possui o mesmo efeito antioxidante de 500mg de vitamina C”, diz a médica.

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Pesquisa alerta para os problemas causados pelo consumo do álcool na gravidez

bebidaO consumo de bebidas alcoólicas pelas mulheres, realizado com frequência e em quantidade cada vez maiores, tem despertado a atenção para a saúde física e a vida social da mulher. Diante deste contexto, a maternidade, que deveria ser um período especial, pode se transformar em uma época de preocupação com a saúde do bebê.

Pesquisas divulgadas pelo CISA – Centro de Informações sobre Saúde e Álcool, organização não governamental e uma das principais fontes de dados sobre o tema no País, apontam que o uso de álcool durante a gravidez pode trazer inúmeros problemas para a criança, como hiperatividade, déficits de atenção, aprendizado e memória.

De acordo com os estudos, diversos fatores podem contribuir para o surgimento de problemas no feto, como padrão de consumo de álcool, metabolismo materno, suscetibilidade genética, período da gestação em que o álcool foi consumido e vulnerabilidade das diferentes regiões cerebrais da criança.

De qualquer forma, sabe-se, atualmente, que os riscos para o feto aumentam com o nível de consumo e a frequência de uso. Em mulheres grávidas que bebem, a alcoolemia fetal é bastante similar à materna, uma vez que a placenta é totalmente permeável à passagem do álcool para o feto.

As mais graves consequências relacionadas ao consumo de álcool durante a gestação são a Síndrome Fetal Alcoólica (SFA) e os Efeitos Relacionados ao Álcool (ERA). A criança com SFA exibe algumas anomalias faciais e apresenta déficit intelectual, além de problemas cognitivos e comportamentais. Já no caso do ERA, existem três formas de manifestação:

– Parcial: crianças que apresentam algumas alterações faciais e comprometimentos neurológicos;

– Malformações congênitas: crianças que apresentam uma ou mais anormalidades congênitas, incluindo anormalidades cardíacas, auditivas, renais e esqueléticas;

– Desordem neuropsicomotoras: crianças que apresentam déficits em sua capacidade de aprendizado, especialmente em aritmética e em seu desenvolvimento sócio-emocional.

Outro motivo de preocupação é o consumo de álcool por mulheres no período pré-gestacional. Pesquisa divulgada pelo CISA indica que o uso de álcool na fase pré-gestacional, em padrão binge (ou seja, quatro ou mais doses alcoólicas em uma mesma ocasião), é forte indicador do consumo durante a gravidez. O estudo apontou que, em relação às mulheres que não bebiam, as gestantes que o fizeram em “binge” nos três meses anteriores à concepção foram oito vezes mais prováveis de beber e 36 vezes mais prováveis de beber em “binge” durante a gestação.

Também é válido reforçar que o etanol, presente nas bebidas alcoólicas, é transferido para o leite materno. Desta forma, o álcool eliminado na amamentação de crianças de alcoolistas pode causar efeitos adversos no sono da criança, no desenvolvimento neuromotor e, mais tarde, no aprendizado. A recomendação é para que a mãe que ingeriu bebida alcoólica se abstenha de amamentar nas horas seguintes à ingestão.

Portanto, para aproveitar o momento especial da maternidade e cuidar desde o início da saúde do bebê, a principal recomendação do CISA é que a bebida alcoólica seja evitada durante a gravidez.

Álcool está associado a 50% dos casos de violência doméstica

violenciaO levantamento envolveu 7.939 domicílios em 108 cidades brasileiras com mais de 200 mil habitantes. De 34,9% de casos de violência doméstica relatados, 17,4% ocorreram sob efeito do álcool.

O estudo também aponta que a gravidade das agressões é maior quando há ingestão da droga. O uso de armas e o abuso sexual (tanto ameaça quanto consumação), ocorreram, respectivamente, numa proporção dez e quatro vezes maior, quando comparados aos domicílios nos quais o agressor não estava sob efeito do álcool.

A crença de que o álcool é responsável pelas agressões diminui a culpa do agressor e aumenta a tolerância da vítima.

A droga lícita mais utilizada no Brasil – com estimativa de 74,6% de uso na vida e 12,3% de dependência, de acordo com dados do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) da Unifesp – não somente está associada à violência como também parece favorecer o seu prolongamento.

Apresentado como dissertação de mestrado pelo psicólogo Arilton Martins Fonseca, o levantamento comparou a recorrência das agressões e verificou que, nos domicílios com agressores embriagados, a violência ocorre três vezes mais em períodos de um a cinco anos; seis vezes mais, entre 6 e 10 anos e, quatro vezes mais, quando as situações ultrapassam uma década.

De acordo com Fonseca, a crença de que o álcool é responsável pelas agressões diminui a culpa do agressor e aumenta a tolerância da vítima, podendo favorecer novos episódios. “Além disso, o padrão crônico de beber pode ser importante fator na reincidência das agressões e agravado quando a dependência já está instalada”, afirma.

Independentemente de sinais de embriaguez, os agressores são, em sua maioria, homens. Entretanto, quando o álcool está presente nessas situações, o sexo masculino é responsável por quase 90% dos casos de violência, contra 53% quando o homem está sóbrio. Entre as vítimas mais atingidas estão as esposas (35,7% quando há embriaguez e 17,9% nos episódios com sobriedade).

Medo, vergonha e despreparo
Procurar ajuda ainda é um obstáculo a ser superado, tanto por quem apanha quanto por quem agride. Oitenta e seis por cento das vítimas de agressores alcoolizados e 89% dos agressores sóbrios nunca procuraram ajuda. Entre os agressores alcoolizados, apenas 11,4% procuraram apoio especializado para diminuir ou parar o uso da droga.

Segundo o psicólogo, fatores como medo, vergonha da família e perante a sociedade fazem com que muitas mulheres deixem de denunciar seus agressores e de procurar ajuda em serviços de saúde básica.

Apesar de ainda muito pequena, a procura por ajuda é cinco e sete vezes maior, respectivamente, nos serviços de segurança e nos serviços de saúde quando as vítimas são de agressões pelo álcool. “A busca, em maior número, pelos serviços de saúde pode estar associada à maior severidade da violência que ocorre quando o agressor está embriagado”, afirma o pesquisador.

Fonseca explica que, embora a violência doméstica venha ganhando cada vez mais espaço em estudos, ainda são poucos os serviços organizados para atender a esses casos. “Os profissionais de saúde não contam com instrumentos de reconhecimento e registro dos casos atendidos nesses serviços, além de não estarem preparados para orientar essas vítimas sobre seus direitos e encaminhá-las aos demais serviços de apoio existentes”, afirma.

Para ele, esses profissionais ainda têm dificuldades em reconhecer a violência doméstica como problema de saúde pública. “O uso de álcool e a violência doméstica são fenômenos complexos e, para que haja uma compreensão da questão álcool e violência é preciso que esses profissionais somem esforços para se estabelecer redes inter e multidisciplinares”, explica.

Dados mais detalhados da pesquisa

Características sociodemográficas:

58,4% dos entrevistados eram mulheres;
44,6% eram casados;
51,3% tinham mais de 35 anos;
28,3% eram analfabetos ou tinham o ensino fundamental incompleto;
42,2% pertenciam à classe baixa. Entre os agressores alcoolizados, esse índice subiu para 49,8%, contra 17,2% dos agressores alcoolizados de classe alta e, 33%, de classe média.

Histórico de violência:

34,9% relataram algum episódio violento, em, 17,4% houve a presença de álcool associada;
61,4% dos agressores alcoolizados tinham entre 31 e 59 anos. Apenas 11,4% deles procuraram ajuda para diminuir ou parar o uso da droga;
35,7% das vítimas de agressores alcoolizados são esposas. Esse índice cresce duas vezes quando comparado a agressores não alcoolizados;
86,4% das vítimas de agressão por álcool não buscaram ajuda em serviços especializados;

A recorrência de violência é seis vezes maior quando o álcool está envolvido num período entre seis e dez anos e, quatro vezes, quando ultrapassa uma década.

A proporção de agressão física quando há presença de álcool foi duas vezes maior; o uso de armas, 10 vezes, e, o abuso sexual, quatro vezes.