Cólica menstrual pode ser princípio de endometriose

Queixas de cólicas são relativamente comuns nos consultórios ginecológicos e facilmente resolvidas, na maioria das vezes, com a indicação de anti-espasmódicos e anti-inflamatórios. Entretanto, de acordo com Eduardo Schor, ginecologista e coordenador do Ambulatório de Endometriose e Dor Pélvica da Unifesp, os profissionais não dão a devida importância às cólicas progressivas das mulheres, levando, geralmente, ao diagnóstico tardio da endometriose, um problema que afeta 10% a 15% das brasileiras – cerca de seis milhões de mulheres. “Alguns trabalhos mostram que os primeiros sintomas ocorrem entre os 16 e 20 anos de idade, mas o diagnóstico somente é fechado oito ou dez anos depois”, afirma. “Nesses casos, apenas 40% delas obtêm sucesso com o tratamento clínico, além de dificultar uma gravidez natural ou, até mesmo, levar a infertilidade. Os outros 60% restantes acabam necessitando de cirurgia que, geralmente, são mutiladoras e a mulher pode perder ovários, parte do intestino ou trompas”.

A endometriose é uma doença caracterizada pela presença do endométrio – tecido que reveste o interior do útero – fora da cavidade uterina. Esse tecido pode se alojar em outras partes do útero ou em outros órgãos da pelve como trompas, ovários, intestinos, bexiga.

Schor explica que, quando a doença é diagnosticada precocemente, em cerca de 90% dos casos é possível tratar clinicamente, suspendendo a menstruação com o uso contínuo de pílulas anticoncepcionais, dispositivos intra-uterinos (DIU) com hormônios ou injeções. “Na fase inicial, uma gravidez também pode funcionar como tratamento, mas como as mulheres estão engravidando cada vez mais tarde por conta do seu papel no mercado de trabalho, a incidência e a agressividade da doença só vem aumentando”, diz. “Por isso que a endometriose é chamada de Doença da Mulher Moderna”.

Para Schor, que há alguns anos uniu o trabalho da Unifesp de prevenção e detecção precoce com o da Sociedade Brasileira de Endometriose, é preciso chamar a atenção não apenas dos médicos, mas também das mulheres mais jovens sobre o problema: cólicas menstruais fortes não são normais.

Qualidade de vida e sexual prejudicadas
Além das dores que, em alguns casos pode até provocar alterações posturais, a qualidade de vida e a satisfação sexual são muito prejudicadas. Uma pesquisa apresentada como dissertação de mestrado na Unifesp pela ginecologista Tatiana Maria Trípoli, com 200 mulheres com e sem endometriose, aponta que 16% das que sofrem de endometriose classificam sua qualidade de vida como ruim ou muito ruim contra nenhum apontamento entre as mulheres sem a doença.

Atingir um orgasmo também parece uma tarefa impossível para 24% delas, contra apenas 6% entre as mulheres sadias. Veja, abaixo, um resumo dos resultados da pesquisa que comparou as mulheres com endometriose e sem endometriose (grupo controle):

>> 22% das mulheres com endometriose sempre têm desinteresse por sexo contra 4% das mulheres sadias;
>> 36% delas também ficam mais tensas e ansiosas quando o parceiro quer fazer sexo e 30% tem menos que duas relações sexuais por semana contra 10% e 12%, respectivamente, entre aquelas que não apresentam a doença;
>> 33% das com endometriose acham que a dor física as impedem extremamente de fazer o que precisam e, 45%, necessitam muito do tratamento médico para conseguirem fazer as atividades diárias contra apenas 10% e 12%, respectivamente, no grupo controle;
>> 25% dessas mulheres afirmam não terem – ou terem muito pouca – energia para o dia a dia e 30% estão insatisfeitas com a capacidade de trabalhar contra 10% e 8%, respectivamente, entre as sadias;
>> 40% das que sofrem com a doença estão insatisfeitas com a vida sexual e, 30%, também têm, frequentemente, sentimentos negativos (mau-humor, desespero, ansiedade e depressão) contra 14% e 15%, respectivamente, nas mulheres sadias.

Gravidez tardia, prevalência familiar e genética
De acordo com Eduardo Schor, além da gravidez tardia, as mulheres que possuem casos de endometriose na família (mãe e irmãs) têm sete vezes mais chances de desenvolver a doença. “Duas pesquisas realizadas por nós também apontam que mutações genéticas estão envolvidas no processo. Duas dessas mutações já foram identificadas, sendo que, uma delas, o chamado P27, foi descoberto por nós”, afirma.

O ginecologista explica que a presença tanto o P27, quanto o Progins, que é a outra mutação descrita, aumentam duas vezes mais as chances de as mulheres terem a doença. “O P27 faz com que as células fiquem mais nervosas e se proliferarem mais do que o normal. Já o Progins provoca uma mutação no gene que codifica o receptor de progesterona”, diz. “A análise in vitro de células de 104 mulheres com a doença mostrou que a mutação P27 estava presente em 35% do grupo. Nas 109 mulheres sadias avaliadas, essa presença foi detectada em apenas 22% delas”.

A outra pesquisa realizada na Unifesp e citada por Schor confirmou a presença marcante do Progins nas células de 29% das 121 mulheres com endometriose e indicação cirúrgica avaliadas contra 21% das mulheres com exames ginecológicos e de imagem considerados normais.

Poluentes na linha de tiro das pesquisas
Fatores ambientais parecem favorecer ainda mais todo o contexto da endometriose, inclusive no aumento do número de casos. Schor e seu grupo de pesquisa estão investigando a relação da dioxina, um poluente usado na produção de plástico e outros derivados de petróleo. “Um trabalho de iniciação científica apresentado na Unifesp mostrou uma forte tendência estatística de alteração celular da endometriose quando exposta a essa substância”, afirma.

Pílula anticoncepcional reduz a incidência de câncer

pilulaSegundo um novo estudo publicado na revista científica Expert Opinion (setembro 2008), o uso de pílulas anticoncepcionais por longos períodos diminui o risco de tumores de ovário, do endométrio e colo-retal.

O estudo foi baseado na revisão de aproximadamente 100 trabalhos científicos e concluiu também que a pílula anticoncepcional pode ser utilizada no tratamento da endometriose, da menorragia (fluxo menstrual intenso) e de miomas uterinos.

Além de inibir a ovulação de forma eficaz e segura, existem evidências de que as pílulas anticoncepcionais reduzem o risco de câncer ovariano, endometrial e colo-retal. “O estudo revelou que as mulheres que utilizam os contraceptivos orais durante um longo período estão menos propensas a desenvolver câncer do ovário do que aquelas que não fazem uso deste método contraceptivo”, afirma José Bento de Souza, ginecologista e obstetra dos hospitais Albert Einstein e São Luiz.

Estudos epidemiológicos também demonstram que a diminuição do risco de câncer do endométrio está relacionada à duração do uso da pílula anticoncepcional. “Com um ano de uso, o risco é reduzido em 20%, com dois anos em 40% e com quatro ou mais anos, o risco é reduzido em até 60%”, explica José Bento. Segundo o médico, o trabalho concluiu que o efeito protetor dos anticoncepcionais em relação ao câncer ovariano e endometrial persiste por pelo menos 15 anos após a descontinuação do contraceptivo oral.

Segundo o ginecologista Jorge M. Haddad, chefe do Setor de Uroginecologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), a proteção contra o câncer de ovário se deve ao fato do contraceptivo oral interromper a função ovariana e, provavelmente, a não-ovulação diminuiria a chance do aparecimento deste tumor. “Acredita-se que ovulações seguidas possam acarretar alterações repetitivas na superfície ovariana que poderiam agir como fator de risco para o desenvolvimento do câncer de ovário. Quanto ao câncer de endométrio, a pílula anticoncepcional combinada com progestógeno parece agir diminuindo a proliferação do endométrio prevenindo, assim, a hiperplasia ou o câncer endometrial”, explica o especialista.

“O grande benefício das novas pílulas anticoncepcionais combinadas são as baixas dosagens hormonais que possibilitam maior tolerabilidade devido a efeitos colaterais menos intensos que, muitas vezes, eram os responsáveis pela não aderência a este método contraceptivo”, informa Jorge Haddad. O médico ressalta que apesar das baixas dosagens dos novos anticoncepcionais, a eficácia contraceptiva é mantida. “Além disso, as pacientes que necessitam deste tipo de medicação para o tratamento de afecções como endometriose, mioma, adenomiose ou sintomas indesejáveis como cólicas ou alterações menstruais intensas podem ser tratadas com o contraceptivo oral que apresenta efeitos colaterais menos intensos”, acrescenta Haddad.

Mais proteçãopilula-21
O uso da pílula anticoncepcional também está associado à menor incidência de endometriose nas mulheres. “Provavelmente este efeito protetor esteja limitado com o uso freqüente ou recente do anticoncepcional. Mas, considerando a mulher moderna, jovem, que estuda, trabalha e não deseja ter filhos até os 30 anos ou mais, ou simplesmente não quer ter filhos, justifica-se plenamente o uso da pílula nessas mulheres, primeiro como contraceptivo e, entre outras vantagens comprovadas, para a proteção contra a endometriose, que é uma doença grave e causa de dor e de infertilidade feminina”, afirma Rosires Pereira de Andrade, ginecologista e obstetra, professor titular de Reprodução Humana da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e diretor do Centro de Estudos e Pesquisas Médicas CEPEME-CERHFAC, de Curitiba.

Mulheres que usam pílulas anticoncepcionais têm proteção contra infecções nas tubas uterinas (antes chamadas trompas) e doença inflamatória pélvica (inflamação na pelve feminina), outra causa freqüente de dor abdominal e de infertilidade feminina. “Essa é mais uma razão para o uso das pílulas por jovens mulheres que têm vida sexual e não querem engravidar. Desse modo, protegem-se contra uma gravidez não-planejada e contra infecção das tubas, que no Brasil é a causa mais freqüente de infertilidade na mulher”, explica.

O especialista lembra que existem estudos que mostram que mulheres que têm ovários policísticos, que são obesas e apresentam resistência à insulina (alteração hormonal relacionada ao diabetes) e que usaram pílulas anticoncepcionais de baixa dose durante cerca de 10 anos, quando comparadas às mulheres não usuárias de pílula, tiveram melhora nos seus níveis de colesterol e de glicose no sangue, além de perderem peso. “Para a saúde dessas mulheres, essa melhora foi fundamental”, destaca Andrade.

Segundo o médico, as pílulas de baixa dose são efetivas para reduzir o fluxo menstrual das mulheres e também reduzem a prevalência e a severidade da dismenorréia (cólica menstrual que podem ser leve, moderada e severa, e que compromete sobremaneira a vida emocional, profissional de inúmeras mulheres). “Desde o surgimento da primeira pílula, a indústria farmacêutica pesquisou e desenvolveu novos hormônios de baixa dosagem com benefícios adicionais”, afirma Andrade. Segundo ele, ao prescrever um contraceptivo oral, o médico deve observar se a mulher apresenta facilidade de aumento de peso, retenção líquida, pele oleosa, acne e sintomas pré-menstruais, pois algumas combinações de hormônios oferecem benefícios adicionais ao bem-estar da mulher.