Sintomas da síndrome dos ovários policísticos podem ser amenizados com tratamento adequado

Frequente em mulheres em idade reprodutiva, a síndrome dos ovários policísticos (SOP) é um distúrbio que se manifesta de diversas formas. Irregularidades menstruais, acne, aparecimento de pêlos espessos na face e em outras regiões, entre outros sintomas, são algumas das queixas que acometem as pacientes.

O diagnóstico positivo para a SOP, doença provocada por alterações na superfície do ovário a partir da elevação dos níveis de androgênios (hormônio masculino), também pode gerar incertezas em pacientes que possuem desejo de gestação imediata ou futura.

Para sanar algumas dúvidas sobre as manifestações clínicas da SOP, o ginecologista Rogério Bonassi, doutor pela Escola Paulista de Medicina e professor adjunto do Departamento de Ginecologia da Faculdade de Medicina de Jundiaí (SP), explica os métodos mais utilizados para o diagnóstico e apresenta dicas para amenizar os sintomas gerais.

>> O que é síndrome dos ovários policísticos (SOP) e em qual fase da vida ela costuma se manifestar?
Rogério Bonassi – Caracterizada pela ausência de ovulação em função do aumento dos níveis de androgênio, a síndrome dos ovários policísticos é uma doença que atinge cerca de 5 a 10% das mulheres em idade fértil. A elevação dos hormônios masculinos provoca alterações nas estruturas do ovário que induzem a formação de microcistos. A SOP também está associada ao maior risco para o desenvolvimento de outras patologias como câncer endometrial (parede interna do útero), ataque cardíaco e diabetes.

>> Quais os principais sintomas que este distúrbio desencadeia?
R. B. – Todos os sintomas da SOP estão relacionados ao aumento dos hormônios masculinos, no entanto, a paciente não apresentará necessariamente todas as alterações. As principais manifestações sintomáticas são as irregularidades menstruais, com ciclos extensos ou ausentes; aumento dos pelos em regiões não comuns em mulheres, como queixo, buço, tórax, abdome, braços, face interna das coxas e região dorsal; além de pele oleosa, acne e obesidade.

>> Quais as diferenças clínicas entre o cisto no ovário e os ovários policísticos?
R. B. – É importante ressaltar as diferenças clínicas entre as duas condições e para isso, alguns critérios são utilizados para caracterizar se um ovário apresenta-se policístico ou se os cistos diagnosticados são fisiológicos (normais). Os cistos nos ovários podem surgir em diferentes situações clínicas, por exemplo, a partir de folículos com crescimento anormal, o que gera grandes cistos, normalmente únicos. Outros podem surgir ao acaso, sendo considerados tumores benignos, como o caso dos cistoadenomas. Estas manifestações são diferentes dos observados na SOP, que se caracteriza pela formação de cistos pequenos e múltiplos, que não chegam a atingir grandes volumes e persistem por longos períodos.

>> Como a SOP é diagnosticada e quais são os métodos para tratamento mais utilizados?
R. B. – O diagnóstico da SOP é clínico, sendo a análise confirmada a partir da presença de ciclos com a ausência de ovulação e sinais de aumento dos androgênios. Outros exames complementares que podem ser empregados são a ultra-sonografia e a dosagem hormonal. Em relação ao tratamento, o médico irá definir o procedimento a partir do interesse de cada paciente. Se há o desejo de gestação, o método a ser utilizado é o da indução da ovulação. Caso a intenção seja apenas a melhora do ciclo menstrual e da pele, pode-se optar pelos anticoncepcionais, em geral aqueles que apresentam em sua fórmula hormônios anti-androgênicos, como a Drospirenona ou por métodos para tratamento hormonal que apresentem em sua formulação o Acetato de Ciproterona.

>> A SOP torna a mulher infértil? Esta consequência pode ser definitiva ou existe um tratamento específico que permita a normalização da ovulação?
R. B. – A doença pode provocar a redução da fertilidade da mulher, porém esta não é uma situação definitiva. O histórico da SOP revela que muitas mulheres engravidam espontaneamente, sendo possível até mesmo a ocorrência de outras gestações após o início do tratamento com indutores da ovulação.

>> Nos últimos anos, a incidência de mulheres diagnosticadas com a SOP aumentou consideravelmente. Esta síndrome pode ser considerada uma doença da atualidade?
R. B. – O que ocorreu nos últimos anos não foi o aumento na incidência, mas sim um maior cuidado para a realização do diagnóstico. Outra questão que auxiliou na ampliação dos casos foi a associação da SOP com a resistência insulínica. Muitas mulheres jovens que se enquadravam no diagnóstico da Síndrome Metabólica e tinham problemas menstruais e de pele, tiveram uma melhor investigação dos sintomas que apontaram a sua causa e, consequentemente, tiveram um tratamento adequado.

Irregularidade menstrual, excesso de peso e diabetes podem sinalizar a síndrome dos ovários policísticos

A síndrome dos ovários policísticos é bastante freqüente e acomete 6% a 10% das mulheres em idade reprodutiva. A síndrome se caracteriza por irregularidade menstrual (geralmente ciclos com intervalos superiores a 35 dias entre um e outro), dificuldade para engravidar, presença de pequenos cistos nos ovários e problemas de pele (espinhas, queda de cabelo ou aumento de pêlos no rosto e na barriga). Além disso, é relatada associação da síndrome com diabetes, distúrbios do colesterol e pressão alta, alterações estas que se agravam nas mulheres obesas.”A síndrome dos ovários policísticos se relaciona a um estado de resistência à ação da insulina, que por sua vez promove diabetes, redução do HDL-colesterol (colesterol bom), aumento de triglicérides e hipertensão arterial”, explica Cristiano Roberto Grimaldi Barcellos, endocrinologista do Hospital Professor Edmundo Vasconcelos.

Até o momento, a causa da síndrome dos ovários policísticos não foi totalmente esclarecida. Parece haver influência genética e do excesso de peso. Segundo o especialista, tratar os ovários policísticos ainda na adolescência pode evitar futuras complicações. “Mulheres com a síndrome estão mais predispostas a desenvolver doenças metabólicas. Por isso é necessário pesquisá-las nas pacientes jovens que apresentam diabetes ou hipertensão”, alerta Barcellos.

Os problemas psicológicos também são apontados como inconvenientes da doença, sobretudo entre as adolescentes, em razão do aumento da acne e dos pêlos no rosto e na barriga. Além disso, cerca de 70% das pacientes apresentam sobrepeso ou obesidade, as quais também se associam a distúrbios psicológicos. O diagnóstico para identificar a síndrome é baseado em características clínicas e laboratoriais. Imagens ultra-sonográficas podem detectar a os microcistos ovarianos, uma das características da síndrome.

Entre as portadoras de sobrepeso e obesidade, o tratamento consiste basicamente na redução de peso, que pode ser alcançado com atividade física e dieta. Entretanto, medicamentos anti-obesidade podem ser utilizados em casos selecionados. Já as pacientes que não ovulam e querem engravidar podem precisar de remédios indutores da ovulação.

Além disso, medicamentos direcionados ao combate da resistência à insulina, como a metformina, podem ser utilizados para melhorar os sintomas da síndrome e prevenir ou tratar os distúrbios metabólicos.

Uma das maneiras de prevenção é combater a obesidade. Estudos estão sendo desenvolvidos para determinar uma causa genética do problema. “O ideal é que a paciente seja acompanhada por uma equipe multidisciplinar, composta por endocrinologista, ginecologista, dermatologista e nutricionista. Com isso evita-se o surgimento de doenças associadas à resistência à insulina”, completa o médico.